*Artigo publicado na Revista Aqui! – edição 22 – Agosto/2003

Predomina na sociedade uma imagem negativa do advogado. Até mesmo os estudantes de Direito, não obstante o esforço das instituições de ensino, parecem assimilar o advogado ao sujeito que, para defender os interesses de seu patrocinado, fere a moral e passa por cima dos preceitos legais, usando de todo tipo de artifício para ganhar a causa.

Se você acha que não é tanto assim. Faça o seguinte teste citado por Piero Calamandrei, jurista italiano. Dizia o mestre que “...entre as facécias costumeiras que circulam sobre a mentira profissional dos advogados, ouve-se fazer seriamente esta espécie de raciocínio: - Em todo processo (contencioso) há dois advogados, um que diz branco e outro que diz preto. Verdadeiros, os dois não podem ser, já que sustentam teses contrárias; logo, um deles sustenta a mentira. Isso autorizaria considerar que cinquenta por cento dos advogados são uns mentirosos; mas, como o mesmo advogado que tem razão numa causa não tem em outra, isso quer dizer que...” cem por cento dos advogados são...(complete você, leitor, a frase).

Se você completou a frase acima dizendo mentirosos, ou coisa similar, infelizmente você acaba de confirmar o acima dito. Por que não completou a frase com “honestos” ou “não dizem mentiras”, afinal a resposta poderia ser tanto uma como a outra?!! Tal preconceito remonta às próprias origens da profissão e se perpetua porque crescemos ouvindo velhas estórias e piadas sobre maus advogados, que já fazem parte do folclore e hoje circulam com ainda maior velocidade pela internet, inclusive entre os próprios colegas de profissão.

A figura do advogado e o seu nobre ofício encontram-se, assim, maculados. O preconceito crescente vem desgastando a profissão, injustiçando a grande maioria dos profissionais, sem os quais a aplicação da Justiça estaria comprometida. Os advogados são culpados pela morosidade dos processos quando na verdade é o Poder Judiciário que se encontra desaparelhado para atender o crescente número de demandas; quando o advogado ganha a causa é porque o cliente tinha direito, não havia como perder; porém, quando perde, é porque não trabalhou direito.

É com pesar que constatamos que a grande maioria dos bons estudantes de direito optam por atuar em outras áreas que não na advocacia, em grande parte desmotivados pelo estigma do advogado do diabo.

Não pretendemos aqui, caro leitor, transformar em santos todos os advogados, como se estivessem livres de pecados e tentações. Como em toda profissão, há os bons e os maus, Mas creiam, a grande maioria procura de forma apaixonada proteger a causa. Colocando-se no lugar daquele que o procura e traz em mãos o infortúnio, o advogado toma para si as dores do seu próximo. Debruça-se sobre o ordenamento jurídico e empenha o melhor de si nessa empreitada. Comemora a vitória, mas, com a mesma ou maior paixão, sofre e decepciona-se ao constatar que não obteve êxito na demanda.

A palavra “advogado” (do latim advocatus, vocatus ad) significa “chamado a socorrer”. É aquele que, pondo-se ao lado do ofendido, ou do acusado, propõe-se em acompanha-lo até o fim da jornada processual, por mais tormentosa que seja. Dizia Francesco Cargnelutti que ”A essência, a dificuldade, a nobreza da advocacia é situar-se no último degrau da escada, junto ao acusado. As pessoas inclusive os juristas, não o compreendem. E riem, e burlam, e escarnecem. Não é um ofício que goze da simpatia do público, esse Cireneu. A razão pela qual a advocacia é objeto de difundida antipatia, inclusive no campo literário e litúrgico, não é outra senão esta”

Cargnelutti faz alusão a Simão Cireneu, aquele do Evangelho, que foi constrangido a carregar a cruz de Cristo. Da mesma forma – talvez até mais nobre – o advogado, sem ser constrangido, se propõe a combater o bom combate, a carregar junto o problema do cliente, compartilhando com este a necessidade de pedir e de ser julgado. Merece o devido respeito.